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Bem-vindo(a) ao Brincando de casinha!

Toda menina tem um fogãozinho inventado, umas xícaras de plástico e uma vassourinha. Toda menina brinca de boneca, cozinha comidinha imaginária e faz uma casinha na sala. Toda menina sonha, em um dia, ter tudo isso de verdade. Aí, isso acontece. Você cresce, compra uma casinha de tijolos, o fogãozinho de brinquedo passa a funcionar, as xícaras são de porcelana... E aí, o que fazer?

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    mar
    8

    A trapeira de Tambaú

    Publicado em : Concursos, Variados por Andrea Siebra Vinet

    trapeira

     

    Na calçada do prédio de luxo, a mulher anônima cata no lixo a sobrevivência. Diariamente! Até aprendeu a organizar a vida doméstica em função desse trabalho. Arranja tempo para levar filhos à escola, lavar roupa, arrumar a casa, improvisar almoço e jantar.

     

    E fala com fria franqueza:

     

    - Na minha casa, todo dia é dia de improviso. Saio cedo da tarde e volto tarde da noite. E aí quem comeu, comeu! Quem não comeu não come mais!

     

    São quatro bocas para alimentar e, por último, chegaram mais duas. A mãe velhinha e sua filha de criação.

     

    - Quem me salva é o “bolsa-família!” e a pensãozinha de mãe! Pago aluguel, compro comida e algum trapo para os meninos. Outras coisas, eu vou conseguindo de porta em porta.

     

    - O marido sumiu! Disse que ia trabalhar no Rio de Janeiro. Nem sei se ainda está vivo! Filho dele mesmo, só o mais velho. Que fique por lá! Não quero mais saber de homem no meu barraco, resmungou.

     

    - Mas, reparei que a senhora é uma mulher bem-parecida. Veste-se bem! Está com tudo no lugar, brinquei. Como uma mulher tão bonita veio parar nesse serviço pesado? Perguntei meio sem jeito?

     

    Vaidosa, as primeiras respostas não foram para o que me interessava. Foram para o que mexeu com sua auto-estima. Vendo que a mulher não respondia ao que eu, de fato, queria saber, insisti:

     

    - E para o trabalho de coleta do lixo, como a senhora entrou?

     

    - Logo que começou esse negócio de reciclagem, me juntei a um grupo organizado aqui no bairro. Não sei fazer muitas coisas! Fiquei muito tempo de doméstica na casa dos outros. Não quis estudar, não ganhei nada!

     

    E, aparentando segurança arriscou:

     

    - Acho que sou feliz! Nos fins de semana, me arrumo, vou passear, danço forró, completou cheia de orgulho e fazendo ares de que ainda era moça fagueira.

     

    E demonstrando que não estava ali para jogar conversa fora, mesmo vencida pelo cansaço, mergulhou suavemente a cabeça para dentro do latão de lixo do prédio de luxo, para catar, lá no fundo, a sobrevivência da família. Trapeira de Tambaú, mulher anônima, mulher guerreira, mulher que achei maravilhosa!

     

    M. Coimbra

    João Pessoa – Paraíba – Brasil

    mar
    2

    Uma saia preta e um par de sandálias

    Publicado em : Eu compraria..., Variados por Andrea Siebra Vinet

    saia-preta

     

    Dia de observação do mundo, de suas várias formas, interpretações, cores. Saí em busca de uma saia preta. Artigo básico, mas necessário. Não é fim de ano, longe disso, é época comum, dia-a-dia. E justamente por isso, a compra se faz necessária MESMO.

     

    Mas, para piorar a busca (porque toda busca de um artigo de vestuário preciso vira uma busca incessante pelo que não-existe: o melhor, o mais barato, o mais bonito, o que me vai bem), estamos no fim dos saldos, época das liquidações. Período de caos nos corredos das galerias. Só que eu não sou de sair às vésperas de uma festa ou de um acontecimento para comprar “aquele artigo” que não me fez a menor falta o ano inteiro, mas faz AGORA. Por isso, tenho que ir hoje, me digo com veemência. E claro, não esqueça o par de sandálias que combinarão perfeitamente com o conjunto final. Coisas de mulher…

     

    Ao entrar na primeira loja, um susto imenso! Ao cruzar a entrada, me vi no meio de uma formigueiro! Gente saindo e entrando por todos os lados, roupas que iam de um lado para outro, saltavam, corriam, voavam! Uma onda de verdes, amarelos, azuis, branco, preto, roxo. Parece que aquela idéia de seguir a moda e usar uma cor apenas ou um degradê de cores durante uma estação mudou. As pessoas hoje vestem tudo, todas as cores, tamanhos e modelos. E a loja estava louca! Vendedoras estressadas, mulheres que gritavam umas com as outras por uma blusa de alças de paetês! Uma calça cáqui com pinduricalhos laterais. Ah, sei nem o que era aquilo direito…

     

    Incrível, mas em pleno tempo de crise, empresas demitindo a torto e a direito, lojas fechando por falta de clientes, e as pessoas brigavam por uma blusa! Salvei-me de lá enquanto pude.

     

    Se numa loja “elitizada”, os bons modos foram esquecidos, imaginei que descendo o preço dos artigos, a coisa piorasse. Mas, percebi que o humor das pessoas muda conforma o poder aquisitivo. Constatações de um shopping center que reúne menores, médios e grandes bolsos. Acabei indo parar num armarinho, de esquina, coisa simples mesmo e lá encontrei minha “arca perdida”. Que felicidade! Exatamente como desejei.

     

    E as sandálias? Claro que achei também, mas nem eram tão bonitas assim… e ficaram na loja mesmo, esperando tempos melhores e uma real necessidade. Sim, porque mesmo na liquidação, elas não valiam a pena (pro meu bolso). Voltei para casa feliz com minha sacolinha simples e poucos gastos.

     

    No caminho para casa, vi a lua.

    E o que ela me disse? Que esse ano que vem caminhando, a passos largos, ao doce compasso desse inverno gelado, vai ser MA RA VI LHO SO!

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